Outra casa

•Dezembro 7, 2009 • Deixe um Comentário

Não quero saber de ti

•Novembro 24, 2009 • Deixe um Comentário

Só te lamento amanhã. Hoje ainda não sei de ti. Andas a cirandar pelo fim do mundo e nem um postal. Passou o meu aniversário outra vez e outra vez te esqueceste. Mas isso já foi antes de ontem, tu nunca ligas e eu já nem ligo. Melhor assim. Quem dera sempre assim, ficar neste hoje sem notícias tuas, não saber de ti amanhã, o dia em que me vais morrer pela vida adentro e desarrumar tudo até à última certeza. Hoje andas a cirandar pelo fim do mundo. Deixa-te andar. Hoje não quero saber de ti.

É hora

•Maio 6, 2009 • Deixe um Comentário

Dói-me esta luz. Este timbre de tarde à hora das memórias perfeitas. Lembro que o meu pai se despediu a esta hora. Apagou-se com esta luz. Venceu o escuro da noite, suportou a excessiva claridade da manhã e só parou de se bater com a dor de respirar quando esta luz se assomou, à hora das memórias perfeitas, do tempo em que ele era gigante e eu corria nu por uma praia ao sul a perguntar-lhe se era capaz de suster o peito e ir ao fundo do mar. E ele sustinha e ia. Depois susteve até não poder mais e foi. A luz ficou e repete-se, sempre que chega o seu tempo, redentora e pontual, e não me dói por ele, porque hoje é luz de presença que me chega sempre com o meu pai pela mão. Dói-me porque é um postal de tudo o que não pode durar, metáfora do mundo. É aquela luz àquela hora. Lembras-te? Dizias-me: aquela luz. E era quanto bastava. Eu sabia e saía a correr para bebê-la num trago sôfrego. Foi nessa luz que melhor nos soubemos, sem saber nem querer o depois. A luz do agora, perfeita porque se extingue, luz de fim, de tarde, da urgência, do agora, sensual e sentida, de todos os sentidos, de cheiros, sons e sabores, luz de prazer que se esvai, suspensa dos dias na fronteira das noites. Não há memória que não se acenda neste calor manso. Nem dores de alma, corno ou cotovelo que valham esta hora.

Retomaremos a emissão dentro de momentos

•Maio 6, 2009 • Deixe um Comentário

mira-tecnica-de-televisao

Do silêncio. A viver das palavras dos outros

•Fevereiro 17, 2009 • Deixe um Comentário

Yes, in my life, since we must call it so, there were three things, the inability to speak, the inability to be silent, and solitude, that’s what I’ve had to make the best of.

 

Beckett

O raio da circunstância

•Fevereiro 4, 2009 • Deixe um Comentário

Eu sou eu e a minha circunstância. Dei por mim a repetir as palavras de Ortega y Gasset na fila da caixa do Lidl. E depois a calcular qual deveria ser o raio da circunstância. Era caricata, cruzava existencialismo e papel higiénico, um pack de seis cervejas e folhados de escamudo (que aconselho vivamente), a minha resignada espera e o bafo impaciente da senhora atrás de mim. Conclui sem grande hesitação nem rigor científico que o raio da circunstância deveria ser de mais ou menos 50 centímetros, o suficiente para me desafogar a existência. Eu seria eu mais esse espacinho ao meu redor. Um metro de circunferência a trespassar-me no eixo, um espaço vital que ninguém ousasse colonizar com cestinhos compras e cotovelos impertinentes, com direito a um quadradinho daquela passadeira rolante só para mim, o meu papel higiénico, as minhas cervejas e o escamudo (os folhados de salmão também não são maus). Quis pedir à senhora que me saísse de cima, me desabitasse, explicar-lhe que aquele espacinho que ela anexava a golpes de passinho arrastado era a minha circunstância, era eu, e que me sentia invadido com o desaforo de uma colonoscopia. Virei-me com a decisão dos indignados, mas logo travei. Primeiro, intimidado pelo seu buço. Depois, surpreendido por perceber que a sua circunstância era também ela sujeita a semelhante devassa por um latagão albanês que já lhe roçava os joelhos nas nádegas (não é caricatura, era mesmo albanês), e lhe invadia circunstância de tal modo que era já a mim que invadia, seguindo o princípio de que mim=eu+50 centímetros de raio. Assomei-me por cima da cabeça desgrenhada da senhora, por entre o sovaco da bizarma balcânica, e avistei uma longa fila de circunstâncias entrelaçadas como uma corrente. Voltei-me para a frente, aconcheguei o escamudo ao papel higiénico, empinei as cervejas a demarcar o território rolante e voltei ao Ortega. Eu sou eu e a minha circunstância. Esforcei-me depois por reconstruir a sequência do seu pensamento. Eu sou eu e a minha circunstância, e se não a salvo a ela, não me salvo a mim. E foi então que o que de mim restava livre se deixou invadir por uma intuição de ecuménica fraternidade: se para me salvar tenho que salvar a minha circunstância, e se nela cabe sempre mais alguém, não me resta senão ajudar o próximo. Próximo, soou a senhora da caixa que me acordou desta letargia. E o próximo era eu. Paguei, saí e desci a rua a passos certos para o jantar. Entrei em casa, e de novo detive-me a deitar contas à circunstância: um T1 só para um, apertado entre uma janela com vista para a decadência e um saguão sem vista para o céu. Foi quanto bastou para que o ímpeto cristão arrefecesse e eu voltasse à fórmula do existencialismo simples, do eu sou eu e minha circunstância, ponto. O próximo teria de esperar. Enfiei o escamudo no forno, as cervejas no frio e fui dar uso ao papel higiénico.

Do silêncio

•Dezembro 8, 2008 • Deixe um Comentário

 

(Este post foi retirado porque não fazia sentido. Creio que também eu me retirei pela mesma razão.) 

Sem palavras

•Dezembro 3, 2008 • Deixe um Comentário

 

O contador do wordpress garante que hoje já nasceram 37717472 palavras de 141618 novos textos inscritos em 4876124 páginas. E eu aqui assomado à janela branca, o verbo seco e os dedos desidratados.

A casa

•Novembro 26, 2008 • Deixe um Comentário

Parece que foi ontem como se não houvesse anteontem. As paredes cinzentas, debotadas de fumo, o caos em papel amontoado por toda a parte, o permanente ruído e a luz sempre artificial, insinuando que o relógio aqui era outro, fingindo estar fora do tempo que rege o mundo lá fora, correndo à frente de todos os outros relógios. Olhar esse imenso retrato de rostos novos como apenas imagino que os olhei, novos, agora que os olho como rostos sem tempo, parece que foi ontem como se não houvesse anteontem, como se uma primeira vez sem antes. E eu a entrar a medo, passos de uma confiança fingida, sem saber que esperar. Como saber que esperar de ontem? Passaram 2922 dias e todos me parecem ontem. O ontem que me ofereceu amigos para a vida, o ontem que me roubou a vida de amigos de uma vida, o ontem gerúndio, que foi sendo, e me fez crescer de gargalhadas e sorrisos e amores, mais o outro ontem que me diminuiu em berros e desencontros, e todos aqueles em que fui feliz mais os outros em que fui quase e os tantos mais em que quase me afoguei em dúvidas e misérias e queixumes e maldisse a casa com a inexorável certeza de que haveria dia seguinte. São 2922 ontens e hoje que é hoje falha-me a memória do dia antes. O lugar a que se chama casa é isso, suponho. Paredes e chão e gente que de tão familiares perdem o antes e recusam o depois. Vem sempre o dia em que saímos, a medo, passos de uma confiança fingida, sem saber que esperar. Sabendo apenas que podem acontecer outras casas, mas todas terão anteontem. A casa não.

Tatuagem

•Novembro 25, 2008 • Deixe um Comentário

 

A minha pele tem saudades tuas. Os poros desidratam de tristes, a tez debota de frio, o tacto perde o sentido sem os nossos segredos cutâneos. Não vale a pena raspar, lixar, escamar. A tatuagem ficou.

 

 

Hoje fico por aqui.