É hora

Dói-me esta luz. Este timbre de tarde à hora das memórias perfeitas. Lembro que o meu pai se despediu a esta hora. Apagou-se com esta luz. Venceu o escuro da noite, suportou a excessiva claridade da manhã e só parou de se bater com a dor de respirar quando esta luz se assomou, à hora das memórias perfeitas, do tempo em que ele era gigante e eu corria nu por uma praia ao sul a perguntar-lhe se era capaz de suster o peito e ir ao fundo do mar. E ele sustinha e ia. Depois susteve até não poder mais e foi. A luz ficou e repete-se, sempre que chega o seu tempo, redentora e pontual, e não me dói por ele, porque hoje é luz de presença que me chega sempre com o meu pai pela mão. Dói-me porque é um postal de tudo o que não pode durar, metáfora do mundo. É aquela luz àquela hora. Lembras-te? Dizias-me: aquela luz. E era quanto bastava. Eu sabia e saía a correr para bebê-la num trago sôfrego. Foi nessa luz que melhor nos soubemos, sem saber nem querer o depois. A luz do agora, perfeita porque se extingue, luz de fim, de tarde, da urgência, do agora, sensual e sentida, de todos os sentidos, de cheiros, sons e sabores, luz de prazer que se esvai, suspensa dos dias na fronteira das noites. Não há memória que não se acenda neste calor manso. Nem dores de alma, corno ou cotovelo que valham esta hora.

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~ por JPO em Maio 6, 2009.

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